O governo está numa encruzilhada: o projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda é popular, mas enfrenta risco real de não avançar como desejado. Há forte preocupação de que emendas parlamentares, disputas internas, pressões do Centrão e o foco em outras pautas como a anistia encalhem ou modifiquem a proposta de maneira desfavorável. Para quem acredita em responsabilidade fiscal, essa proposta representa chance de aliviar parte da carga tributária, mas também exige cautela para que o benefício não seja corrompido por concessões excessivas ou falta de compensações.
O que está em jogo
A promessa é de que quem ganha menos pague menos ou deixe de pagar IR, o que alivia o bolso de muitos brasileiros e reforça a popularidade do governo. A faixa de isenção está desenhada para beneficiar parcela significativa da população — trabalhadores assalariados, pensionistas, pessoas que vivem de rendimentos modestos.
Mas a carta de benefícios vem com custos: reduzir arrecadação, exigir compensações, evitar que quem ganha mais também se beneficie desproporcionalmente ou que o projeto acabe gerando déficit orçamentário que pressiona outras áreas.

Principais obstáculos
- Emendas parlamentares: deputados do Centrão e de outras bancadas já amadurecem ideias de alterar valores, aumentar a faixa de isenção além do previsto, sem indicar de onde virão os recursos para compensar. Isso pode esticar o custo do programa muito mais do que o governo planejou.
- Clima de tensão na Câmara: disputas políticas, insatisfação com outras medidas do governo, desgaste em algumas bancadas, desconfiança entre líderes partidários. Tudo isso pode atrasar a aprovação ou causar retaliações que dificultem a unidade.
- Concorrência de outras pautas: o debate sobre anistia e outros projetos de impacto polarizado estão tomando espaço, mobilizando deputados, gerando pressões que desviam o foco da isenção do IR.
- Pressão para evitar compensações: há forte apelo para que os deputados adicionem benefícios, excluam contrapartidas, abram mão de medidas de ajuste fiscal. Mas sem compensações claras, isso pode gerar rombos no orçamento, inflação ou cortes em serviços essenciais.
O que o governo espera
- Que a proposta seja pautada logo, para evitar que emendas e pressões criem atraso ou mudem muito o texto-base.
- Que o Centrão, embora tenha força de negociação, tenha medo político de aparecer contra algo tão popular — muitos acreditam que será difícil para deputados votarem contra a isenção ampla, porque isso gera custo político visível.
- Que o relator e líderes de bancadas articulem para evitar emendas explosivas, delimitem ganhos, definam compensações fiscais e preservem responsabilidade.
Riscos se der errado
- Perda de credibilidade: se o governo promover o benefício e ele sair “mangado”, com faixas reduzidas, com exceções ou sem compensações, vai sobrar desgaste político — quem esperava alívio vai se sentir traído.
- Déficit fiscal: sem compensações, receita diminuída pode forçar cortes em serviços públicos, programas sociais ou investimentos.
- Eleições de 2026: medida de isenção do IR pode ser usada como argumento eleitoral forte, mas se for corroída, oposição e eleitores de direita vão cobrar coerência e responsabilidade.
- Desconfiança institucional: se parecer mais uma negociação de bastidor do que um projeto pensado, legitima o discurso de que políticas públicas são obras de favores, não de planejamento.
Conclusão
Ampliar a isenção do Imposto de Renda é medida desejada por muitos, econômica e politicamente sensata, se bem feita. A chance de aliviar impostos, melhorar renda disponível, ganhar apoio popular é real. Mas o governo precisa blindar o texto: minimizar emendas descontroladas, garantir compensações, preservar justiça fiscal, evitar que o benefício vire privilégio mascarado.
Para quem defende lei, ordem e transparência, esse momento exige vigilância. Quem cobra governo eficiente espera que promessas se transformem em resultados concretos, e que não haja mais uma medida inflada que ao final serve só para discurso.
